Resenha: S.


S. ( O Navio de Teseu)
Autores: J.J Abrams e Doug Dorst (V.M Straka)
Editora Intrínseca
456 páginas

Esta obra é basicamente um extenso quebra-cabeça literário. Há duas histórias contadas que de certa forma se completam e até mesmo se assemelham. O livro “O Navio de Teseu” escrito pelo autor V.M Straka vem dentro de uma caixa com a letra S. impressa na capa. É um livro fictício de aparência antiga, escrito por volta de 1949.



Mas afinal, quem é V.M Straka? Esse é o grande mistério que envolve o livro. Apesar de ninguém jamais ter visto seu rosto, ele foi autor de diversos romances. Seu último livro, “O Navio de Teseu”, existe com a ajuda do tradutor F.X Caldeira que era uma das poucas pessoas que tinha contato, pois se correspondia com ele, mas também nunca o conheceu pessoalmente. Seus romances estão envolvidos com conflitos políticos que destruíram governos, prejudicaram organizações e empresas, que queriam sua cabeça. Straka apresenta uma reputação que envolvia conspirações e uma lista de assassinatos.
O mais interessante desse livro é que ele vem todo rabiscado, grifado e recheado de anotações feitas por dois leitores assíduos, Jen e Eric, que te acompanham nas margens do livro e cujas observações trazem novas concepções à leitura. Isso porque eles acreditam que o livro está repleto de códigos -e realmente está- e que FXC conhecia bastante o autor apesar de nunca tê-lo visto. Há várias especulações de quem poderia ser Straka e com base nisso, os dois vão em busca e pesquisam as semelhanças do livro com os supostos "Strakas", para enfim  descobrir quem ele realmente era. Porém, eles não sabem que essa pesquisa também pode ser muito perigosa, e que essa busca incessante pode trazer resultados inesperados.

“[...] homens se perdem, homens desaparecem, homens são apagados e renascem.”-pg. 5

Nas margens do livro: Um livro antigo grifado e com várias anotações em suas margens é encontrado por uma jovem. Com muito interesse no assunto, essa garota chamada Jennifer responde as anotações e deixa o livro no mesmo lugar para retornar ao seu misterioso dono, entretanto mal sabia que isso iniciaria um enorme diálogo entre eles, onde ambos mergulhariam em conversas sobre o livro e seus mistérios, mas também sobre suas vidas pessoais, seus sentimentos, medos e interesses, o que faz o leitor se aproximar também da história desses personagens. Portanto, Jen e Eric acabam se aventurando no universo de Straka e pesquisando todas as informações contidas em seus livros, em especial O Navio de Teseu. Procuram por mensagens ou códigos inseridos nos textos pelo autor, ou até mesmo pelo tradutor FXC. -Eu me senti muito próxima da Jen. Acho que todo mundo ao ler uma história se aproxima de algum fato, sentimento ou até pela personalidade de algum personagem,  passei por isso, mas com a Jen... parecia que fui descrita ali e digo isso não só pela personalidade dela que achei semelhante a minha, mas com situações que ela vivenciou e sentimentos que ela sentiu, por exemplo, perante a faculdade ou com a família ou com ex-namorado, que eu também vivenciei, me senti olhando pra um reflexo de mim mesma, nunca tinha visto isso em nenhum outro personagem de outros livros que li e achei assustador e muito divertido ao mesmo tempo.- Um fato curioso é a nítida semelhança da vida deles com eventos ocorridos no livro e as informações que eles descobrem sobre o autor. E isso é bem interessante, pois faz um paralelo com a história do Navio de Teseu e Straka com os personagens das margens do livro.

“Sente como se estivesse caindo novamente, caindo no escuro, sem nada em que acreditar senão na cruel eficiência da gravidade.” -pg 34

O Navio de Teseu: Último romance escrito por V. M Straka, uma história  envolvente, emocionante e reflexiva. O protagonista S., é um homem cujo passado é desconhecido e foi sequestrado por um navio estranho e uma tripulação assustadora. Apesar de S. não compreender quem ele era, aos poucos ele aprende sobre quem ele é, e adquire objetivos durante sua viagem no navio e em suas jornadas perigosas em terras firmes. O nome do livro refere-se a história mitológica do navio que levou Teseu e outros jovens para serem sacrificados ao minotauro. Na verdade o navio esquisito que S. embarca se assemelha bastante com o navio da mitologia, por sempre remover as partes velhas que apodreciam ou quebravam e substituí-las por partes novas. Essa questão se tornou motivo de discussão entre grandes filósofos como Heráclito, Sócrates e Platão, afinal o navio que Teseu começou a sua viagem (A) é o mesmo de quando ele termina (B)? A=B? Se Teseu deixasse uma peça original do barco A no barco B, essa peça do A seria suficiente para A ser idêntico a B? E assim vai. Em minha opinião, são as mesmas questões que envolvem a relação do navio com nosso personagem S. A história é narrada em terceira pessoa -além das notas narradas pelo tradutor e observações e anotações nas margens pelos dois leitores. Em alguns momentos a descrição dos lugares que S passa ou até mesmo alguns sentimentos e sensações que ele sente são contados de forma bem poética e até um pouco onírica.


Design do livro: Apesar de ser uma obra fictícia, é um livro que passa muita veracidade tanto no design como no conteúdo. A capa é grossa e as páginas apresentam um aspecto antigo, manchadas e amareladas. Os rabiscos e anotações feitas à lápis e canetas são muito reais. Entre suas páginas há documentos, mapa desenhado em guardanapo, cartas, jornais recortados e outros anexos que faz o leitor ficar cada vez mais imerso na vida de Straka e FXC, como também na de Jen e Eric. É um livro envolvente e totalmente interativo. A leitura é longa porque você lê duas histórias, mais os anexos, porém quando começa não consegue parar. -Eu como fã de mistério e detetive fiquei apaixonada pelo livro e me diverti bastante.- O livro foi criado por J.J Abrams, diretor, roteirista e produtor de dezenas de filmes e séries como Lost, Alias e o sétimo episódio de Star Wars - O Despertar da Força e o  premiado romancista Doug Dorst. Em entrevista ao The New Yorker, Abrams explica: “Na era do e-mail e das mensagens instantâneas, quando tudo é enviado para a nuvem e torna-se intangível, S. é intencionalmente tangível. Queríamos incluir coisas que você pode segurar nas mãos: cartões-postais, fotocópias, documentos jurídicos, [...]” Sua inspiração surgiu em um banco de um aeroporto, quando Abrams encontra um livro e ao abri-lo deparou-se com a seguinte mensagem: “Para quem encontrar esse livro: por favor, leia-o, leve-o a algum lugar e deixe-o para que outra pessoa o encontre.” O livro foi lançado em 2013 nos EUA e chegou no Brasil em dezembro de 2015 pela editora Intrínseca, após dois anos de trabalho de uma grande equipe formada por cerca de quinze pessoas. A editora fez questão de manter o desenvolvimento original do livro cuja conversa desenvolvida pelos personagens nas margens e os textos dos anexos foram escritos à mão pelo designer gráfico Antônio Rhoden, que teve a missão de passar para o português usando a mesma técnica que o artista usou originalmente, para depois ser digitalizados. Ele experimentou e testou diversas canetas e materiais, e demorou quase um ano para finalizar o trabalho. A versão nacional demorou dois anos para ficar pronta, pois foi necessário ser impressa na China, -mas valeu a pena esperar. A Intrínseca está de parabéns pelo trabalho impecável e pela dedicação na produção deste livro.

“Talvez não seja esquecer. Talvez elas nos ajudem a não sermos tão pequenos”- pg. 381

Forma de leitura: Não há uma forma correta, cada um tem seu modo de leitura. Há pessoas, por exemplo, que leram primeiro todo livro de Teseu para depois lerem as anotações. No meu caso eu li tudo junto, acompanhei ambas histórias e achei o mais ideal. É muito interessante que as anotações nas margens do livro são feitas com canetas de cores diferentes, que remetem a diferentes tempos de leitura, porém elas não seguem uma ordem cronológica, portanto, às vezes, Jen e Eric citavam alguém que você não conhecia, -um  leve spoiler da parte deles-, mas isso não prejudica a leitura da história, pelo contrário, só te deixa mais ansioso pra chegar a tal ponto do livro e entender do que eles estavam falando, -eu como sou curiosa, adorei isso (risos).
“Palavras são um presente para os mortos e um alerta para os vivos.”- pg. 234
Dicas e Curiosidades:

·     * É importante manter os anexos nas páginas certas, porque a ordem faz sentido. A Íntrinseca disponibilizou uma lista que está disponível aqui: http://www.intrinseca.com.br/jjabrams/

·           * Uma coisa que me ajudou muito para entender as observações feitas por Eric e Jen, foi anotar separado os nomes dos supostos Strakas que está no prefácio do livro, como também os nomes dos antigos livros do autor. Você pode anotar em outro lugar ou tirar foto como preferir. Isso me ajudou muito, pois diversas vezes eles comentam a respeito dessas pessoas, muitas vezes escrevem só o sobrenome ou até mesmo utilizam abreviação. Eles fazem muitas citações e comparações com outros livros dele também. Então, ter isso em mãos evita ficar voltando as páginas pra entender do que eles estão falando.

·     * Apesar de muitas pesquisas e anotações de Jen e Eric remeter a livros e autores fictícios, há também citações reais como no caso da obra "Uma Descida a Maelstorm" de Edgar Alan Poe, que é um conto que dá referência a um personagem da tripulação chamado Redemoinho.


G.F



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