[Resenha] A Mulher com Olhos de Fogo



Resenha: A Mulher com Olhos de Fogo – O Despertar Feminista
Autora: Nawal El Saadawi
Editora: Faro Editorial
160 páginas

“-Você é uma mulher violenta e perigosa – disse um deles.
-Eu estou falando a verdade. E a verdade é violenta e perigosa.” 

Um livro curto, tocante, fluido e com uma trama que nos marca e nos faz refletir. Neste livro somos apresentados a Firdaus, uma menina ingênua e perdida, uma jovem estudiosa e dedicada, uma mulher corajosa e destemida. Esta é uma ficção baseada em um relato verdadeiro de uma mulher que foi presa por assassinato e está à espera de sua execução em uma prisão no Egito.


A prisioneira relata a autora toda a sua trajetória, desde quando era menina até o momento que se tornou uma assassina. Firdaus passou por inúmeras situações, e aprendeu sozinha a lidar e viver numa sociedade machista e preconceituosa. O livro aborda de forma nua e crua o sofrimento das mulheres mulçumanas e a vida de uma jovem que desde pequena presencia a violência contra mulher, vendo sua própria mãe sendo agredida pelo pai. Saadawi é, além de escritora, ativista, médica e psiquiatra feminista egípcia e escreve muitos livros sobre as mulheres no Islã, se dedicando principalmente à luta contra a mutilação genital feminina no Oriente Médio.

“[...] sua história mostra como a confiança é minada e finalmente se deteriora, até que reste no lugar apenas medo e distanciamento. Uma pessoa que foi privada da capacidade de confiar vive à margem da sociedade; ela é só uma sombra de um ser humano. Tal pessoa vive por instinto, e suas avaliações e considerações não vão além da necessidade imediata da sobrevivência.”


“Não havia nada no passado nem na minha infância que fosse digno de ser lembrado, nem amor ou coisa parecida no presente. Tudo o que eu tinha a dizer, portanto, só poderia estar ligado ao futuro. Porque o futuro ainda pertencia a mim e eu poderia pintá-lo nas cores que desejasse. Ainda pertencia a mim para que eu decidisse livremente como seria, e para operar mudanças como bem entendesse.”


“Eu me dei conta de que todos esses governantes eram homens. O que eles tinham em comum era uma personalidade gananciosa e distorcida, um apetite insaciável por dinheiro, sexo e poder sem limites. Eles eram homens que espalhavam a corrupção pela Terra, e pilhavam seus povos. [...] a verdade sobre eles foi revelada somente depois que morreram. Como resultado disso eu descobri que a história tende a se repetir com uma obstinação insensata.”

Acompanhamos de perto, sob a perspectiva de Firdaus, uma vida desprovida de escolhas, repleta de traições e abusos. A personagem trilha seu caminho sozinha, neste mundo cruel e violento, repleta de pessoas egocêntricas e ambiciosas e consegue encontrar meios para sobreviver, mesmo que estes não sejam dignos aos olhos da sociedade.

“A minha virtude, como a virtude de todas as pessoas que são pobres, não poderia jamais ser considerada uma qualidade, ou triunfo. Na verdade era vista como um tipo de estupidez, ou de ingenuidade, e desprezada ainda mais do que a depravação ou o vício.”


“Isso me mostrou que uma pessoa precisa de muito dinheiro para preservar a sua honra, mas me ensinou também que não se pode obter uma grande quantidade de dinheiro sem abrir mão da honra. Um círculo infernal girando sem parar, e me arrastando para cima e para baixo com ele.”

Este livro é um misto de emoções.  O leitor assiste de camarote uma vida sendo tomada e uma voz sendo inúmeras vezes silenciada. Essa é a história de Firdaus, porém é também a história de vida de milhares de mulheres que lutam para ter seu espaço, seu futuro, sua liberdade, seus sonhos, suas escolhas. A personagem sofre uma grande transformação e amadurecimento ao longo da trama, não há em quem confiar, mas mesmo assim Firdaus lutou, ergueu a cabeça e seguiu em frente até o fim. É uma história que acende, desperta e reafirma o desejo de luta das mulheres pela igualdade social.

“Eu sabia que políticos de sucesso não conseguiam aceitar uma derrota diante de outras pessoas, provavelmente porque sempre carregavam a derrota dentro de si mesmos.”

“A vida é uma cobra. É a mais pura verdade, Firdaus. Se a cobra perceber que você não é uma cobra, vai morder você. E se a vida perceber que você não tem veneno, vai devorar você.”

“Um homem não conhece o valor de uma mulher, Firdaus. A mulher é a única que determina o seu próprio valor.”

Apesar do tema sério e impactante, a leitura é leve e bastante fluida. A Faro Editorial caprichou na edição: a capa, textura da folha e diagramação ficaram impecáveis. É um lindo livro para se ter na estante, com uma mensagem forte, chocante e reflexiva.

Eloise G.F

Um comentário

  1. Amei a resenha e gostei muito da dica! Vou incluir na minha não tão curta listinha de leitura haha <3

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