[Especial] Terror- Neil Gaiman, a Arte do Medo


Neil Gaiman é um autor britânico de romances, quadrinhos e roteiros. Seus trabalhos são focados, geralmente, em gêneros como fantasia, terror e ficção científica. Gaiman é célebre por tratar de temas pouco comuns ao universo infanto-juvenil. Famoso por suas literaturas fantásticas que transitam entre a fantasia e o medo, retrata, sem subestimar a inteligência de seus leitores, sobre a morte, mitologia, psicologia e terror.


Para Gaiman o terror é intimidador, entretanto afirma que o gênero é apenas um tempero utilizado em suas histórias.
Em uma palestra no TED 2014 em Vancouver, Gaiman explica o por quê de contar histórias de fantasmas e qual o propósito de ouvir ou ler histórias que nos proporcionarão medo. Ele responde que “contamos histórias sobre o desconhecido, sobre a vida além-túmulo, há um longo tempo; histórias que fazem arrepiar a pele, que tornam as sombras mais profundas e, mais importante, lembram-nos que vivemos, e que há algo de especial, algo único e extraordinário sobre estar vivo.” E completa que “o medo é uma coisa maravilhosa, em pequenas doses”. *Tradução Super Interessante.

Os contos de fadas são famosos por utilizarem o medo e o perigo como forma de lição. No prefácio do livro Fadas no Divã (2006), Maria Rita Kehl aborda o termo medo como “uma das sementes privilegiadas da fantasia e da invenção [...]”. Ela explica que “o medo pode ser provocado pela percepção de nossa insignificância diante do Universo, da fugacidade da vida, das vastas zonas sombrias do desconhecido. É um sentimento vital que nos protege dos riscos da morte. Em função dele, desenvolvemos também o sentido da curiosidade e a disposição à coragem, que superam a mera função de defesa da sobrevivência, pois possibilitam a expansão das pulsões de vida. As crianças procuram o medo. As histórias infantis incluem sempre elementos assustadores que ensinam os pequenos a conhecer e enfrentar o medo.”

H.P. Lovecraft, considerado um dos mais reconhecidos e respeitados escritores de horror do século XX ao inserir e atribuir elementos fantásticos que são típicos dos gêneros de fantasia e da ficção científica, afirma que “a emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido. Poucos psicólogos contestarão esses fatos, e a sua verdade admitida deve firmar para sempre a autenticidade e dignidade das narrações fantásticas de horror como forma literária.”

Para os psicanalistas Diana e Mario Corso (Fadas no Divã, 2006) o mundo se torna mais previsível e tranquilo quando a criança tem noção do que é o perigo e de onde ele provêm. E acrescentam, assim como Lovecraft, que o pior medo é despertado quando não conhecemos bem os contornos do que nos apavora.”

Neil Gaiman é um dos poucos autores contemporâneos que explora sem receios temas sombrios e psicoemocionais em livros infantis. Todavia, é importante ressaltar que sua escrita não faz diferenciação para o público adulto ou infantil, uma classificação que até mesmo J.R.R Tolkien (autor de O Senhor dos Anéis) considerava desnecessário. Tolkien explicou em uma palestra no ano de 1939, que os contos de fadas não são inerentemente “para” crianças, mas que nós, como adultos, decidimos simplesmente que elas são,com base em uma série de equívocos sobre a natureza dessa literatura e sobre a natureza das crianças.


Um dos exemplos mais famosos do autor é o livro Coraline (publicado no Brasil pela editora Rocco), uma trama fantástica de terror, que de princípio foi considerada muito assustadora para uma obra infantil. O livro aborda a história de uma menina chamada Coraline, que se muda com sua família para uma nova casa. Em uma tarde chuvosa, a menina consegue abrir uma porta que sempre estivera trancada e descobre um caminho misterioso que a leva para um “outro” mundo no qual se depara com seus “outros” pais. Tudo parecia melhor nesse mundo, porém aos poucos Coraline percebe que há algo aterrorizante envolvendo o lugar, e precisa usar toda sua inteligência e coragem para derrotar seus adversários. A obra conta com ilustrações do artista Dave McKean, que também ilustrou O Livro do Cemitério e capas dos quadrinhos de Sandman.

“Quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem” -Coraline p. 59

O professor da UFRJ, Mário Feijó, estudioso nas obras de Gaiman, em entrevista para editora intrínseca, revela que o autor primeiro busca dar ao leitor o medo, depois o faz pensar e por fim se emocionar com coisas simples. Ele explica que Gaiman transforma narrativas assustadoras em lições de sabedoria e que essa é a origem da chamada literatura infantil, que provem da mitologia, folclores e contos de terror que mais tarde viraram contos de fadas.

Outra obra espetacular (e minha favorita) é O Livro do Cemitério (também publicado no Brasil pela editora Rocco) que conta a história de um bebê que consegue escapar de um assassinato e passa a morar em um cemitério, onde é criado e cuidado por fantasmas e seres de outro mundo. Todavia, o perigo continua rondando do lado de fora dos portões do cemitério. É uma trama de causar arrepios, mas que também aborda sobre amizade, família, lealdade e amadurecimento.


O Oceano No Fim do Caminho (publicado no Brasil pela editora Intrínseca), considerado um romance adulto, também é uma obra que transita entre a fantasia e o medo, relata a história de um homem de meia-idade (narrador) que ao regressar para sua terra natal para um funeral, começa a recordar-se de incidentes do passado que julgava esquecidos. É um livro que retrata sobre a busca da identidade própria, nostalgia e o valor da amizade. Nos faz refletir sobre a escuridão que circunda as memórias de nossa infância.


O professor da UFRJ, Mário Feijó, em entrevista para intrínseca afirma queo autor nunca esquece que dentro de cada adulto há uma criança e um adolescente tentando se ajustar a um corpo envelhecido; e que este adulto tende a valorizar cada vez mais as vivências infantis e juvenis.

Um dos últimos livros que adquiri do autor foi o conto João & Maria (publicado no Brasil pela editora Intrínseca), ilustrado pelo artista Lorenzo Mattotti. Essa obra apresenta a essência mais sombria da história original e o assombroso passeio nas profundezas da floresta. Os artistas conseguiram resgatar sentimentos de horror e fascinação que sentiram a respeito desse conto em suas infâncias. Gaiman explica que é um verdadeiro desafio produzir um livro infantil com uma atmosfera mais sombria, entretanto afirma que se você tenta evitar histórias sombrias com intuito de se proteger de coisas ruins, você, na verdade, não está protegido delas, pois você não tem conhecimento delas para se proteger. Ele acredita que é importante apresentar as crianças as coisas sombrias e ruins do mundo, e nessa apresentação mostrar também a forma de superar essas coisas ruins, como se proteger e combatê-las.

Leia Também- Resenha: João & Maria

Se você ainda não conhece as obras desse autor, não deixe de conferir os citados nessa coluna. Todos esses livros são recomendadíssimos, para crianças, jovens e adultos de todas as idades. Neil Gaiman é simplesmente sensacional! Vale a pena conferir!

 Referências:
Eloise G.F



2 comentários

  1. Olá!
    Adorei o post! Tenho curiosidade sobre a escrita do Neil Gaiman, mas ainda não tive a oportunidade de ler algum de seus livros. Assisti apenas ao filme Caroline, que adoro, apesar de ter um "tiquinho" de medo kkkkk.
    As dicas já estão anotadas! Quando puder adquirir algum dos livros do autor, já sei quais pesquisar!
    Parabéns pelo texto tão bem escrito e pelas referências incorporadas!
    E ah! As fotos lindas ♥

    Abraço!

    http://bloghistoriasliterarias.blogspot.com.br

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    1. *O* Muito Obrigada! Havia tempos que queria escrever sobre Gaiman e achei que esse mês era a cara dele hahaahah Coraline é arrepiante mesmo, ainda preciso fazer resenha desse livro. Quando tiver oportunidade leia, os livros dele são ótimos! O meu favorito é O Livro do Cemitério <3 Obrigada pelo comentário Cailes, fico feliz por ter gostado do post :D

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